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Carta a António Lobo Antunes. Embalas-me até à última gota de cada palavra?





Fotos: VISÃO

Termina hoje um ano em que neste espaço [onde há anos se partilham paixões], percorri a veia de um Homem que admiro. De um Escritor que tenho o privilégio de conhecer e viver na minha tão pequena Existência. 'Em Nome de Ti ALA' nasceu a 1 de Janeiro de 2014. Um desafio que coloquei a mim mesma, sabendo que não seria fácil, tendo em conta o ritmo que a profissão me exige diariamente. Contudo, desafiar-me a mim mesma, numa meta que não era, de todo, uma sucessão mecânica de citações, foi um prazer. Revivi-te em cada frase. Em cada livro. Em cada entrevista que reli e outras novas que, ao longo deste ano, concedeste. Queria partilhar com o Mundo mais de mim. E de ti. Um ensinamento teu. Todos os dias de 2014. «Assim serei mais forte. Assim tu tenhas também a força necessária para terminar mais um livro», escrevia eu no início deste ano, sem saber sequer se sobreviveria até hoje. E aqui estamos. Tu. Eu. E o mundo. Terminaste o livro e eu ainda estou viva. Lembro-me, quando te contei, de me desmotivares, de dizeres, quase em desespero, que não merecias, que não ias ler, que não valia a pena. Não quis saber. Ignorei. Porque era importante para mim. Porque partilhar-te, tu, que és do Mundo, foi e é para mim, o mais importante. Chegados aqui, já tenho saudades de te buscar todos os dias. Continuarei a fazê-lo, comigo, como sempre fiz, desde o dia em que me apaixonei pelos teus livros, pelo escritor que és. Tempos houve em que ansiava ver-te Nobel. Hoje sei que era um sonho de menina. Que se esfumou com o passar dos anos. O maior reconhecimento, como me ensinaste, está feito, e pertence aos leitores. É a herança que deixas bem viva em cada página de estórias e movimentos dançantes de palavras. A maior dádiva é ter-te na minha vida. É ter o privilégio e a sorte de me mimares quando estás por perto. Mimo que preciso. Mimo que quero. Mimo de que nunca prescindirei. Muitos não te conhecem. Acham-te um arrogante, um velho chato que se acha muito bom. Têm razão. É essa, muitas vezes, a imagem que queres passar. Mas o pequeno círculo que verdadeiramente te conhece, que recebe os teus bons dias, que ouve os teus dramas e choros, que aceita as tuas birras, sabe que tudo isso é doçura, que tudo isso é a forma inata que te caracteriza por fora. Por dentro, sei-o bem, és uma criança, inocente, que pede apenas um mimo, um doce com travessuras pelo meio. Sei que te terei. Em toda e qualquer dimensão porque sem as tuas palavras e capítulos não vivo. São o oxigénio que preciso para me manter à tona. Vergílio Ferreira disse um dia, no raiar do seu existencialismo cinzento, que «não há vida que passe por nós, somos nós que passamos pela vida e temos o dever de nos orientarmos nas suas teias». Tu já o fizeste. Eu quero continuar a fazê-lo, rodeada de páginas, de chávenas de chá de camomila com bolinhos da Dona Maria, e maços de tabaco, cinzeiros e isqueiros espalhados à nossa volta. Ler-te não pode ser literal. Ler-te é entrar em ti, ALA, e no ser humano que és. Sem ti, não seria AC. Sem ti, também a minha escrita não seria o que é. Um chá e umas bolachas. Volto ao cenário porque o quero viver quantas as vezes que puder. Repetimos na última semana do ano. E não, não és extrovertido, porque quem te percorre as entranhas consegue ver-te sempre a sorrir e a dançar. Em caracteres sedutores que embalam e me adormecem até amanhecer. Por isso farei de todos os meus dias um Momento «Em Nome de Ti, ALA», porque quero que me continues a embalar até à última palavra de cada frase, de cada capítulo, de livro. Até à última palavra de Ti. 

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