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Momento «Em nome de ti, ALA», dia 357.


Momento «Em nome de ti, ALA», dia 357: «E é Natal outra vez (está sempre a ser Natal, que coisa, a velocidade com que os Na­tais se sucedem) O meu pai está doente, ando há ano e meio com este livro, a mu­dá-lo de uma ponta a outra para ficar como eu quero e não me sinto triste, sinto uma espécie de raiva negra, vontade de telefonar seja a quem for, não importa, só para ouvir
- Olá.
Dei parte do jantar ao meu pai
(umas colheres de sopa, dois sonhos de bacalhau, água bebida por uma palhinha)
consegui que ele falasse um bocado de Eça de Queiroz, da doença de Alzheimer, de Schubert, voltei a dar-me conta, com a surpresa do costume, que me pareço imenso com ele, ao poisar a nuca na almofada a dignidade, lavrada de ossos, do seu perfil aumentou, os grandes móveis escuros, à nossa volta, deixaram de pertencer à minha infância para fazerem parte do presente que termina logo ali, num muro e, para além do muro, nada. Comi com as minhas filhas, só a gente os quatro, na casa da Joana, um  sótão onde morei na volta de Angola, a minha vida, prolongada nelas, ganhou um sentido que me comoveu e a raiva amansou. Duas ou três fotografias minhas nas estantes, uma das quais com Jorge Amado e Ernesto Sábato num restaurante em Pa­ris, os três de pé, com o braço nos ombros uns dos outros, Jorge bem disposto como quase sempre, Sábato mal disposto como quase sem­pre, exigindo do mundo um reconhecimento que na sua opinião o mundo lhe não dava. Lá fora uma data de noite na árvore: já não existe a capoeira, já não existe o poço, mas as plantas densas, opacas. Nessa manhã tínhamos ido a um funeral e voltei ao cemitério onde a Zé está, em Abrigada: a paisagem à volta mudou porque o incêndio do verão queimou tudo e a serra castanha, nua. O mesmo padre a enco­mendar o corpo numa velocidade de relato de futebol. Durante a tarde, no atelier com o romance, pensei no que fiz da minha vida e não fiquei contente com o resultado: não deixarei muito quando me for embora, alguma coisa para ler, talvez. A minha mãe subiu as esca­das a fim de estar connosco: tantos mal entendidos entre você e eu, mãe, nunca fui como queria, nunca poderia ser como queria. Em Abrigada a Epifânia, a Bé: tratam-me por senhor doutor, envelhece­ram, e contudo o sorriso delas não mudou. Copas altas junto à igreja, nenhum cão. O pobre Sábato amargo, infeliz
(dava ideia de estar sempre a representar)
com as suas sedes de glória. Quando acabou o funeral afastei-me para fazer chichi contra um tronco, desde miúdo que gosto de urinar ao ar livre: aborrece-me verter a alma para um cano. Jorge Amado pa­recia satisfeito com o seu destino, mandava-me cartas à máquina cor­rigidas à mão. Fizemos juntos uma viagem pelo Sul de França com Gisèle Freund, uma velhinha miniatural que retratou Virgínia Woolf, Joyce. Retratou-me a mim também e não sei onde pára o boneco: de­ve ter-se perdido numa das casas onde me perdi. Gisèle Freund magrinha, a Epifânia gorda, desenhada por Walt Disney. Ouvia-se uma quantidade de loiça a quebrar na cozinha e no silêncio a seguir a voz da Epifânia, tranquila, dirigindo-se às terrinas e aos copos partidos:
-  Deixa-te ir.
À saída do cemitério o irmão da Epifânia apertou-me a mão
-  Até à próxima, senhor doutor
desejando mais enterros, julgo eu. Duas mulheres embelezavam uma campa enchendo-a de jarrinhas. Um melro passou ao rés das er­vas, sumiu-se numa moita. Sábato suspirava resignado, fúnebre. A Joa­na poisou o queijo na arca, a minha mãe desceu para verificar a febre do meu pai: as iluminações do Natal não chegam aqui, ficam lá em baixo, na Estrada de Benfica, incapazes de alcançar-nos. Se eu conse­guisse dizer
- Mãe
e é difícil, porque quem morou com ela foi um antepassado meu, a compor versinhos às escondidas, a fumar às escondidas, a apaixonar-se, às escondidas, por actrizes de cinema: o écran apagava-se, a sala acendia-se e o mundo tão acanhado, tão feio. O que me toca em Schubert é a sua capacidade de silêncio, a forma como cada nota tange um nervo meu. Com o meu pai nunca falei de mim: apetecia-me tan­to, às vezes. Se ao menos fosse capaz de falar do mais secreto de mim mesmo. Faço-o nos romances: deve ser por isso que não os releio, por estar ali despido. As mulheres acabaram de embelezar a campa e fica­ram a observar com orgulho a sua obra. Natal outra vez, que gaita. Daqui a pouco meto-me no carro, vou-me embora com a desculpa do romance, as ruas de Lisboa desertas. Não reparo nas janelas: não me apetece reparar nas janelas. O cemitério de Abrigada fica, por assim di­zer, numa espécie de encosta com uma grande serenidade à volta. Quando o tempo começa a aquecer escutam-se os grilos. E o vento. A capacidade de silêncio do vento, a forma como cada nota tange um nervo meu. A esta hora o meu pai deve ter adormecido. Pergunto-me se alguma vez terá sentido esta espécie de raiva negra, vontade de tele­fonar seja a quem for, não importa, só para ouvir
- Olá.
Grandes móveis escuros. A cama em que fui feito. Espero que a Epifânia diga na cozinha, após o seu rebuliço de loiça
- Deixa-te ir
para acelerar o automóvel até um sítio onde ninguém dê comigo
(não se escandalize, mãe)
a fazer chichi contra um tronco: é que me aborrece, sabe, verter a alma para um cano».

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