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Campanha (s) de Abril.

No fim-de-semana em que se celebrou Abril, com toda a carga histórica e emocional que este mês encerra, percebemos que o espírito começa a perder força. Nos primeiros anos da Troika, o povo português, irado e revoltado, fazia das celebrações de Abril uma esperança. Agarrou-se aos feitos do passado para acreditar que, também, agora, seria possível vencer um regime decadente e que abdicava da sua autonomia e independência. Os 40 anos que passaram sobre a Revolução dos Cravos, que se celebraram em 2014, parecem ter sido o último grito de esperança. Na verdade, no último ano, os portugueses parecem ter-se cansado das lutas, dos gritos e de fazer ouvir o seu desespero. Em parte, esta apatia, resulta da incapacidade que os organizadores de muitas manifestações de rua, tiveram em mudar o estado de coisas. Enquanto isso, os discursos políticos do 25 de Abril permanecem iguais, repletos de teias de aranha e cansativos. Desde o Presidente da República, aos líderes partidários passando por deputados. Tudo permanece igual, entre acusações e ataques que colocam a nu as fragilidades de uma classe incapaz de se reinventar. 
Mas o 25 de Abril de 2015 ficou marcado por uma acção de charme político preparada ao segundo. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas chamam as televisões às oito da noite e apresentam aquilo que muitos já esperavam: os dois partidos que lideram apresentam-se juntos em coligação nas legislativas deste ano. A escolha da data foi minuciosa e teve, em parte, o propósito de irritar a esquerda, já que ousar fazer uma acção de campanha destas no dia 25 de Abril, era coisa impensável para muitos. Como a democracia é a liberdade do ser, a esquerda ficou refém da crítica, já que como ouvi tantos dizer naquele dia, cada um é livre de fazer o que bem entender. Uma coisa é certa, com Costa a ganhar terreno, o centro direita vê-se obrigado a avançar. O resultado destas eleições será uma incógnita. Os portugueses terão de escolher entre a continuidade da austeridade ou…a permanência dos sacrifícios. Porque PS, PSD e CDS estão todos no mesmo barco, reféns de um memorando que assinaram e que é para continuar a cumprir, ao contrário do que diz Costa. O exemplo da Grécia devia fazer pensar as hostes à esquerda. É um exemplo corajoso mas serve de prova, em como na Europa a 28, manda um eixo antigo que não permite rebeldias a Sul. Com o anúncio da coligação, Passos e Portas obrigam também os possíveis candidatos presidenciais à direita a repensar as suas decisões. Seja qual for o candidato, uma coisa é certa: terão o apoio, em força, de PSD e CDS. Marcelo parece estar cada vez mais perto desse desígnio, já que, entre Passos e Portas, é, porventura, aquele que reunirá mais consensos. O ano de 2015 é, pois, de muita fervura. Abril passa, ao mesmo tempo que esfria cada vez mais a luta dos portugueses na rua mas também o penoso caminho das suas vidas.

*Crónica de 27 de Abril, na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR

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