Avançar para o conteúdo principal

A nudez de Joana.


Joana Amaral Dias, cabeça-de-lista pela coligação AGIR, protagonizou nas últimas semanas ações que rasgam claramente com condutas e posicionamentos clássicos na política e sociedade portuguesas. Primeiro, a famosa conferência de imprensa, onde anunciou a gravidez de risco. Depois, a capa da revista "Cristina" (uma publicação não jornalística, pelo menos assim a vejo). Portugal é um país democrático. A liberdade é o nosso bem maior. E o erradicar de preconceitos é, e deve ser, um combate diário. Contudo, se a antiga militante do Bloco tem todo o direito de fazer com a sua imagem o que bem entender, sendo, obviamente, ambas as ações estratégias comunicacionais e eleitorais, a verdade é que, também em democracia, há limites. Na minha opinião, este rasgo, legítimo, ultrapassa, os tais limites de quem se apresenta a votos para defender a cidadania. O corpo é claramente uma linguagem, uma forma de comunicação, uma estratégia de chegar às massas. Mas não creio que a decisão possa ajudar na clara estratégia. Pelo contrário. E, sinceramente, é uma exposição evitada. Joana Amaral Dias tem um percurso político. Conhecido. Inconstante, na minha opinião. Mudar é uma forma de evoluir. Mas as mudanças ideológicas e as ações oscilantes que Joana protagonizou, nos últimos anos à esquerda, revela, quanto a mim, vazio. Vazio de ideias. Dúvidas. E até muitos caminhos à deriva que trilhou. A política, na Velha Europa, ainda é conservadora, na forma como se posiciona face ao eleitorado. E o eleitorado, que gosta de ideias novas, de gente nova ousada, também tem limites na forma como recebe a mensagem. Na política, há muito que sabemos que vale tudo. Mas o ato de Joana não é, na minha opinião, uma ação vencedora. Não é assim que se convence as pessoas sobre projetos, ideias e intenções para um país. Eu quero um político que me defenda, que se preocupe com a minha vida, a minha dignidade enquanto cidadã. Não quero alguém que pense mais em si e nos seus objetivos pessoais/políticos. Joana pôs um país a debater a sua decisão. Mas Joana não conseguiu o mais importante: colocar um país a pensar se vale mesmo a pena votar nela. Porque apesar de a política e os seus representantes estarem descredibilizados, não pode nunca chegar a este tipo de vulgaridade. Vulgaridade que apenas existe pela circunstância eleitoral. Uns acharão que será uma campanha de comunicação genial. Mas só o será se os resultados pretendidos forem obtidos. Não me parece que será o caso. Contudo, talvez eu me engane.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Autárquicas 2017: o papel dos independentes

Um primeiro-ministro à altura da tragédia

«O país partilha um sentimento de luto nacional e um grande sentido de unidade. A quem perdeu familiares e amigos, a nossa solidariedade», escreveu António Costa, na sua conta no Twitter
Há momentos dolorosos de um primeiro-ministro. Este, sei-o bem, é um deles. 
A imagem, essa, diz tudo.

Sinto-me miserável

Não devia hoje falar sobre a tragédia que aconteceu em Portugal este fim de semana. Mas sinto que preciso abordar o tema.
Em primeiro lugar porque há todo um país a chorar os seus mortos. O que aconteceu em Pedrógão Grande parece saído de um filme de terror.
As imagens, os sons do silêncio e o desespero de quem perdeu os seus fazem-nos sentir, à distância, miseráveis. Eu, confesso, sinto-me miserável. Como testemunha. Como impotente. 
É certo que muita coisa podia ter sido feita para aliviar o drama.
Contudo, o conjunto de fatores climáticos únicos e extremos que se encontraram ao final do dia de sábado, mudaram o percurso da história.
Em Abrantes viveu-se o mesmo fenómeno. Eu própria, durante duas horas, assisti a tudo.
Um céu negro que se formou lentamente, relâmpagos de terror e a formação de ventos muito fortes conduziram a momentos dramáticos e de reviravolta no incêndio de São Miguel do Rio Torto.
Isto mesmo comprovaram as autoridades. Das poucas certezas dadas, há uma que é inequí…