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Crónica de uma fuga (não) anunciada.




Refugiados. É este o tema da última crónica de 2015 na Antena Livre. Escolhi os refugiados porque eles foram, pelas piores razões, o assunto do ano que esta semana termina. Por mais que tente, por mais que quisesse, é impossível esquecer os rostos de homens, mulheres, crianças, de famílias inteiras, que me chegam diariamente e que fazem parte da minha vida. A crise de refugiados e migrantes que assolou a Europa em 2015, fruto da proliferação de conflitos em países como a Síria, o Iraque, Afeganistão, Paquistão, Somália, o Líbano ou a Etiópia, deixou sem resposta,muitos países desenvolvidos do velho Continente e que há muito mantêm uma política de encerramento de fronteiras. O problema despertou consciências, modificou alterações de comportamento de muitos Estados, mas também trouxe o recrudescimento de discursos xenófobos, que têm atingido todo o tipo de migrantes. Não só aqueles que se assumem como migrantes económicos, mas também todos aqueles que reivindicam o seu estatuto de refugiados, em fuga da guerra, da perseguição e da discriminação. O problema, humanitário e global, provou também que este nos pertence a todos, e levou-nos a escolher um caminho na Europa.Podemos até dizer que a política do medo foi superada pela política da dignidade. Hoje, os líderes políticos olham para os refugiados como seres humanos que nunca deixaram de o ser, há hoje mais condições para um acolhimento digno, com uma distribuição pela União Europeia enquanto esperam definição do estatuto. Há ainda outro alerta lançado e que importa refletir em todas as sociedades do velho continente: falo da necessidade de imigrantes que tem esta Europa onde nascem poucas crianças. Por um tempo longo demais a Europa fechou os olhos para a violência e a brutalidade da guerra civil na Síria e manteve-se alheia ao sofrimento de milhões de pessoas. O mais importante desta história que tem ainda um fim muito distante é que o equívoco criado na opinião pública de que muitos refugiados seriam um fardo esbateu-se. A reação a essas  preocupações tão familiares não é erguer mais barreiras, mas sim saber gerir pressões e os riscos, numa Europa que tem na sua génese a solidariedade. Volto a reafirmar: que o medo continue a ser superado pela dignidade. Só assim o novo ano que nos espera, e o futuro que há-de vir, pode ser promissor no campo dos direitos sociais de que cada ser humano é portador por inerência.  Por fim, quero desejar a todos os ouvintes da Antena Livre a todos os profissionais e colaboradores desta casa um Próspero Ano Novo. Que 2016 seja verdadeiramente um ano renovador e luminoso nas vossas vidas. Voltamos a encontrar-nos nesta mesma antena em 2016.

*Crónica de 28 de dezembro de 2015, na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR. 


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