Avançar para o conteúdo principal

Com amor, dedicado a todas as mães que ainda não o são.




A Assembleia da República aprovou na passada sexta-feira os projetos de lei que regulam o acesso à gestação de substituição – as chamadas barrigas de aluguer - e o alargamento do acesso à Procriação Medicamente Assistida. O projeto de lei sobre barrigas de aluguer teve iniciativa do Bloco de Esquerda, um partido que comanda atualmente no país em matéria de medidas fraturantes. Mas já lá vamos. A partir de agora todas as mulheres que não consigam engravidar por problemas de saúde passam a poder recorrer a outra mulher para ter um filho. No caso da Procriação Medicamente Assistida passa igualmente a ser permitido o recurso a técnicas de fertilização a mulheres solteiras, casadas ou em união de facto. Compreendo que os dois temas possam ainda causar alguma perplexidade em vários setores da sociedade portuguesa. Uns por razões ideológicas, outros por questões culturais, religiosas e sociais. É certo que a crença e as convicções devem sempre ser respeitadas por todos. Contudo, o que o Parlamento aprovou na semana passada, é, em meu entender, um avanço civilizacional. A família tradicional, tal como a conhecemos, acabou. Por muito que isto custe a aceitar. Mas na verdade o que é ser mãe? Ser mãe não é amar um filho em todas as suas dimensões? Ser mãe não é dar-se na íntegra a uma missão de amor? E por que razão uma mulher, solteira, não pode ter o direito de ser mãe recorrendo a práticas de fertilização? Por que raio eu, enquanto mulher, não posso ter o direito de ser mãe em toda e qualquer circunstância? Ser mãe é ser mãe. Ponto. E a ciência felizmente pode cada vez mais ajudar a concretizar esse desejo para tantas e tantas mulheres que, por razões várias, não o podiam ser até agora. É por isso que este projeto do Bloco de Esquerda se afigura talvez como um dos mais importantes aprovados nesta legislatura. E, como já aludimos no início desta crónica, uma coisa é certa, o partido liderado por Catarina Martins assume, atualmente, um protagonismo delirante na vida política portuguesa. Na Troika da governação, é o Bloco quem lidera as propostas mais incómodas e fraturantes, deixando o PCP cada vez mais isolado. O PS sabe disso, e é por isso, que o sucesso desta harmonia de esquerda se deva mais aos bloquistas do que aos comunistas. Resta saber até onde António Costa deixará ir a irreverente Catarina Martins. Nos diplomas de que falamos nesta crónica deixou-a ir ao sítio certo. Porque ser mãe é um direito que assiste toda e qualquer mulher e, sobretudo, que nos coloca a todas em pé de igualdade. 

*Crónica de 16 de maio de 2016 na Antena Livre, 89.7 Abrantes. OUVIR.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Autárquicas 2017: o papel dos independentes

Um primeiro-ministro à altura da tragédia

«O país partilha um sentimento de luto nacional e um grande sentido de unidade. A quem perdeu familiares e amigos, a nossa solidariedade», escreveu António Costa, na sua conta no Twitter
Há momentos dolorosos de um primeiro-ministro. Este, sei-o bem, é um deles. 
A imagem, essa, diz tudo.

Sinto-me miserável

Não devia hoje falar sobre a tragédia que aconteceu em Portugal este fim de semana. Mas sinto que preciso abordar o tema.
Em primeiro lugar porque há todo um país a chorar os seus mortos. O que aconteceu em Pedrógão Grande parece saído de um filme de terror.
As imagens, os sons do silêncio e o desespero de quem perdeu os seus fazem-nos sentir, à distância, miseráveis. Eu, confesso, sinto-me miserável. Como testemunha. Como impotente. 
É certo que muita coisa podia ter sido feita para aliviar o drama.
Contudo, o conjunto de fatores climáticos únicos e extremos que se encontraram ao final do dia de sábado, mudaram o percurso da história.
Em Abrantes viveu-se o mesmo fenómeno. Eu própria, durante duas horas, assisti a tudo.
Um céu negro que se formou lentamente, relâmpagos de terror e a formação de ventos muito fortes conduziram a momentos dramáticos e de reviravolta no incêndio de São Miguel do Rio Torto.
Isto mesmo comprovaram as autoridades. Das poucas certezas dadas, há uma que é inequí…