Numas presidenciais sui generis, o País falou e disse ao que vinha. Mais dividido do que nunca, António José Seguro e André Ventura passam à segunda volta. Será um duelo ideológico, com taticismos e com o eleitorado (sobretudo os indecisos e os que resultam de outras candidaturas) na mira. Marques Mendes, Cotrim de Figueiredo e Gouveia e
Melo tiveram cerca de 2.3 milhões de votos. Isto diz muito do que aí vem até dia 8 de fevereiro, o dia em que os portugueses regressam às urnas para escolher o novo Presidente da República. Neste rescaldo eleitoral, sintetizamos o que aconteceu.
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| Crédito da Foto: Facebook António José Seguro |
António José Seguro. O socialista renegado pela própria família política. O homem que lutou contra tudo e todos. O homem que tantos e tantos camaradas de partido tentaram anular quando anunciou que era candidato. A esquerda que não desistiu a favor dele deve pensar bem no que anda a fazer. A esquerda, na sua globalidade, também. O homem que nasceu em Penamacor, que vive nas Caldas da Rainha, e que insiste em ser ele próprio, fazendo um discurso de vitória, rouco, cansado, na terra onde escolheu viver. Seguro representa o que nos resta do sonho. E é com isso que devemos amanhã levantar para seguir em frente. Porque no dia em que nos matarem o sonho, nesse dia, a democracia acabou.
André Ventura vai à segunda volta. O País falou e disse quem queria lá. Esse é um mérito do líder do Chega. Custe a quem custar, a verdade é que André Ventura fez e está a fazer um caminho político que apenas a si o deve. Devemos todos pensar por que razão Portugal escolhe a extrema direita. E a esquerda mais ainda. Ventura está na próxima etapa por mérito próprio. É um caso sério de estudo na ciência política em Portugal. André Ventura consegue o melhor resultado dos candidatos da
direita (1.320.000 votos) e teve
mais do dobro dos votos de Marques Mendes (636.000 votos). A democracia é isto e, para o bem e para o mal, temos de viver com ela.
O
resultado de
Henrique Gouveia e Melo a mim não me surpreende. Não conseguiu conquistar o eleitorado apenas e só porque não quis assumir ao que vinha. E isso fez sempre, desde o primeiro dia, a diferença. Não se ganha um País sem dizer quem somos, ao que vimos e o que pensamos. Pagou caro a aventura. E nunca percebeu que não bastou ser um salvador pandémico para chegar a Belém. Talvez um dia volte. Se voltar, não cometerá, espera-se, os mesmos erros.
Luís Marques Mendes, o grande derrotado da noite. O candidato que deixa a direita moderada órfã para uma segunda volta. Um cenário que era expectável e que a máquina de Marques Mendes desvalorizou. Um resultado que cria um problema a Luís Montenegro e a toda a direita, que agora se confronta sem candidato numa segunda volta que dificilmente fugirá a António José Seguro. Veremos o que fará Montenegro, mas quando não se pode dizer o que se quer, dita a experiência que o melhor é ficar em silêncio. E já ficou, dizendo que o PSD não apoiará nenhum dos dois candidatos na segunda volta.
João Cotrim Figueiredo teve hoje um resultado que nunca pensou alcançar quando se candidatou a Presidente da República. Teve uma campanha que lhe correu bem até à ultima semana. E provou ser alguém em quem muitos portugueses confiam. A democracia é isto mesmo. Deve ter orgulho no que fez e no que alcançou. Fará com isto o que entender. Mas a experiência política prova que há capital que não deve ser desperdiçado.
A segunda volta das presidenciais realiza-se a 8 de fevereiro de 2026. São candidatos António José Seguro e André Ventura.
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