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Mário Soares: era uma vez um dia quente de julho no Vau...


Não podia deixar passar o momento sem falar de Mário Soares. Por estes dias, em que decorrem as cerimónias fúnebres, já tudo foi escrito, já tudo foi dito, já todos anunciaram, vezes sem conta, a importância que ele teve e terá sempre para Portugal, para a construção da democracia e daquilo que hoje somos e temos.
Conheci Mário Soares em 2004, na campanha interna do Partido Socialista, era eu uma jovem jornalista, a dar os primeiros passos no jornalismo político. Mário, o Pai, apoiava, como seria de esperar, o filho, João nas eleições internas do PS, contra Manuel Alegre e José Sócrates, tendo este último vencido o partido rumo a São Bento, como se sabe. 
Depois disso cruzei-me com ele algumas vezes, sempre em circunstâncias profissionais. 
E apenas uma vez, uma única vez, me encontrei com ele pessoalmente. É sobre essa história que aqui vos quero falar. 
Para lá do político, do histórico, do advogado e da figura incontornável da democracia portuguesa havia um Homem, um Homem com uma memória rara e com uma forma particular de ser e estar. 
Foi em 2010, no Vau, no Algarve, para onde Mário Soares e a família rumavam todos os anos, sem exceção, para passar as tradicionais férias de verão. 
Numa manhã de calor intenso de final de julho subia eu a encosta íngreme, de terra batida da Praia do Alemão, quando ouvia alguém chamar por mim. Por aquelas bandas era raro encontrar alguém, e jamais naquele momento me passaria pela cabeça que fosse Mário Soares. 
“Ana Clara, por aqui, que é feito de si?”, dizia-me ele, depois de me voltar para trás e de lhe acenar. A hora de almoço que já marcava no relógio há muito, havia ainda de esperar mais uma hora, porque Mário Soares fez questão de descer de novo à praia para tomarmos um café. 
Era assim Soares, com uma memória implacável, não esquecia uma cara, um nome, e sabia, de cor, o ano e o jornal onde eu estava quando nos conhecemos. 
Era um homem resolvido, firme do caminho, sólido no pensamento, convicto dos valores. E, sobretudo, tolerante, de uma compreensão dolorosa até, quando os outros discordavam dele, quando ele discordava do mundo. 
É este um dos valores maiores que Mário Soares deixa cravado em mim: o da tolerância na liberdade de que dispomos.
É por isso que esta crónica é dedicada à memória de Soares, que ela nunca se extinga na consciência deste país que, pese embora os que dele nunca gostaram, tem para com ele uma enorme dívida de gratidão.

*Crónica de 9 de janeiro de 2017, na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR

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