Carlos Santos Pereira: morreste-me e eu não me despedi de ti! Sim, é uma grande merda!

Foto: Médio Tejo/Direitos Reservados. 
Esta segunda-feira começou negra. Com a notícia inesperada com a qual nunca se conta. Roubo-te a expressão, que adotei como minha há muitos anos, e que te ouvia tanta e tanta vez: "que grande merda, Carlos!". 

As últimas horas foram adensando o novelo que se criou na garganta. Pouco me sai, ainda agora, neste momento, quero escrever e sinto que estou confusa, sem chão e sem norte, numa espécie de pesadelo, vagueando em pensamentos sem sentido, procurando encontrar um sentido para isto. Não há. Nunca haverá. 

Mas preciso escrever, falar, exorcizar este fantasma e esta perda. Uma perda é sempre uma perda, mas há umas mais 'fodidas' que outras. A tua, Carlos, é fodida! Há 11 anos, o destino levou-me um outro Carlos (Pinto Coelho) que, tal como tu, foram pilares na jornalista e mulher em que me tornei, e que ambos ajudaram a formar. Venci esse trauma, que foi a morte do Carlos, e estou curada dele, porque lutei diária e internamente, anos a fio, com a incompreensão da morte. 

Hoje, estou mais forte para suportar a tua partida, mas não menos frágil, porque "morreste-me", Carlos, e eu não pude despedir-me de ti! Primeiro, culpei-me, depois, desculpei-me, agora estou na fase de aceitar que ninguém tem culpa. Mas penitencio-me porque não te disse, mais um par de vezes, o quão sou grata por ter sido tua aluna, por ter sido tua amiga, por ter recebido tanto de ti. 

Foi há 20 anos, numa escola de jornalismo na província este País, que o destino havia de querer que aprendesse o melhor do jornalismo contigo. Estávamos todos, de corpo e alma, num projeto a dar os primeiros passos, e eu e todos os que fomos teus alunos, tivemos a sorte de nos terem dado o melhor, os melhores: a tua experiência nos Balcãs, a sobrevivência em palcos de guerra, os princípios basilares do Jornalismo dos quais nunca podemos nem devemos abdicar, o que ser e não ser nesta profissão que nos consome anos de vida, mas que só pode ser exercida com paixão. Não há outra forma. Seríamos uns infelizes se não amassemos o que fazemos. 

Paixão. É a palavra que mais vislumbro em ti. Foi sempre assim. Paixão em tudo o que fazias, em tudo o que gostavas, em tudo quanto querias ser. Em tudo aquilo que eras e és para nós. 

Depois da Universidade, e já na lei da selva das redações da capital, nunca me largaste a mão, apertavas a minha esquerda, ao mesmo tempo que o Carlos (Pinto Coelho), me amparava a direita. Foram pilares essenciais no meu início de carreira (e permaneceram na minha vida até hoje). Não havia semana que não me perguntasses "como ia a vida". "E já sabes, não te deixes comer, és estagiária mas sem abdicar da dignidade nem da perseverança". "Manda-os à merda, se preciso for", dizias-me em tom de ordem, sempre que te ligava a pedir conselhos. E eu nunca deixei nem me desviei. Também graças ti. 

Em 2011 - sabe Deus como - convenceste-me a fazer contigo o Curso de Defesa para Jornalistas, no Instituto de Defesa Nacional. Eu sempre quis fazê-lo, mas sempre disse que só o faria se fosse contigo aos comandos. Não sei como, nem de que forma, mas foi um dos dias mais felizes da minha vida, aquele em que me telefonas e me dizes: "está feito, o curso começa para a semana, e só faltas tu. Inscreve-te! Vou lá estar". Era assim o Carlos, não desistia de nenhum aluno, de nenhum camarada, de nenhum amigo. Porque no final de tudo, para ele, éramos apenas e só um amigo, que nunca se abandona, nem se deixa para trás. Foi mais um período, já em plena atividade profissional, que não esqueço. Duas semanas duríssimas, entre aulas e o trabalho, mas que compensaram os sacrifícios. Tudo, graças a ti, meu querido Carlos! E com a tua adrenalina muito própria, que contagiava todos à tua volta! 

Era um professor exímio, exigente, mas sempre com aquela 'boa onda', à grande moda jornalística, à moda antiga, em que o mais importante era, acima de tudo, estarmos todos à vontade para sermos nós mesmos. Com o Carlos, podíamos ser tudo, mas éramos pequeninos, sobretudo quando ele partilhava as suas histórias de sobrevivência nos Balcãs. Detalhava cada bala, cada tiro, cada morte, cada registo de uma guerra que o marcou de forma inteira. Era inteiro. E isso foi a sorte maior que tivemos com ele. Essa partilha, desnudada, completa, sem temores. 

O Carlos (Santos Pereira) foi dos melhores que tivemos no jornalismo português. Dos mais íntegros. Dos mais transparentes. Mestre dos Mestres. Único na reportagem e no terreno. Destemido e indo sem pensar muito nas consequências. Com uma escrita só sua. Inesgotável. O importante era - e é - a notícia. Disto, meus caros, já há pouco. E tinha uma das caraterísticas que mais falta fazem por cá na espuma dos dias: humildade. Um dos homens mais simples que conheci. Talvez por isso, pela retidão do pensamento e caráter, tenha acumulado muitos ódios de estimação. Nunca se arrependeu de ser tudo isso: verdadeiro, escorreito, honesto, íntegro. Doesse a quem doesse. (Sei que me repito, mas não me canso, hoje não me canso). E também por isso, algumas 'casas' por onde passou, nunca o reconheceram em vida como ele merece. Ele não o quereria hoje, bem o sei. Mas sempre me incomodou a mim. E neste texto em que exorcizo a tua perda, não falar sobre isto, seria consumir-me. 

Hoje, quando procurei o colo dos meus, para me aliviar o desassossego, recordo as palavras da minha mãe, quando há 20 anos, foi comigo visitar a mãe do Carlos, hospitalizada em Abrantes. "Recorda a doçura e a firmeza dele, é disso que não te podes esquecer, e do quanto ele continuará a ser importante para ti. Ele não iria querer que cedesses. Onde quer que ele esteja, quer quer brindes, quer que sorrias, e que sejas aquilo que ele espera de ti". Tentarei continuar a sê-lo. Mas os golpes das perdas que vamos tendo, vão deixando marcas, vão-nos deixando cada vez mais órfãos daqueles a quem devemos quem somos. A ti, Carlos, brindo neste momento, com uma mão trémula, com uma raiva imensa por teres partido sem me avisar. E decerto, só, rodeado dos teus gatos, dos teus sonhos e do teu eterno desejo de ser jornalista para sempre. Porque o serás. Mas hoje tens de me perdoar, hoje estou inconsolável porque já não te poderei abraçar, nem brindar contigo, nem sequer chamar-te. Nada. 

Acredito que para lá da nuvem, havemos um dia de nos reencontrar. Acredito que por estas horas estarás já com o Carlos (Pinto Coelho), o Vicente (Jorge Silva), o João (Mesquita) e o Torcato (Sepúlveda) a brindar e a fumar cigarros numa festa com muitas máquinas de escrever e computadores à volta. Acredito que a seguir pegarás na tua moto e voarás, a toda a velocidade, contra o vento, rumo à liberdade que mais prezas. Porque os Grandes, como tu, não morrem, Carlos, não podem morrer!

Farei contigo agora o que já fiz, uma vez, há 11 anos, quando o outro Carlos me morreu: replicar-te-ei em mim, lá bem no fundo das entranhas que me permitem continuar a respirar. Um beijo na testa, Carlos, e que me ajudes daí a não me desviar nunca do caminho! E perdoa-me, por qualquer coisa que fiz, ou que não fiz. O vazio que hoje me deixas é fodido e, sabes, Carlos, deixas-me numa "grande merda"!

Nota: para os que não conheciam o Carlos Santos Pereira, deixo o artigo do Expresso, que resume um pouco do seu percurso jornalístico e também do ser humano que era:

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