O ano de 2025 marcou a entrada nos 75 anos da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), num dos contextos mais desafiantes da sua história, em que as crises humanitárias estão a deixar de ser exceção para se tornarem rotina. Entramos em 2026 com um saldo inquietante: nunca tantas pessoas estiveram deslocadas à força, nunca as crises se cruzaram de forma tão complexa e nunca a solidariedade internacional se mostrou tão necessária. Visto a partir de Portugal, não se trata apenas de olhar para “o que se passa lá fora”, mas de perceber que o mundo em deslocação está a redesenhar o nosso presente e o nosso futuro comum.
Artigo de Opinião de Soraya Ventura | Diretora Nacional da Portugal com ACNUR
(Enviado por Portugal com ACNUR)

Soraya Ventura, Diretora Nacional da Portugal com ACNUR, de visita à Síria, onde a emergência humanitária em curso já forçou a deslocação de milhares de pessoas, muitas delas crianças. © UNHCR/ACNUR.
Os dados mais recentes do ACNUR revelam que, no final de 2025, havia cerca de 135 milhões de pessoas em situação de deslocamento forçado em todo o mundo - um número sem precedentes na história contemporânea. Ao longo do último ano, o ACNUR respondeu a emergências que explodiram ou se agravaram na República Democrática do Congo, Sudão do Sul, Afeganistão e Myanmar, enquanto mantinha apoio em crises prolongadas como Sudão, Ucrânia e Colômbia. Em paralelo, geriu 24 declarações de emergência ativas em 16 países, muitas impulsionadas por conflitos, fenómenos climáticos extremos e retornos forçados, com o continente africano a permanecer no epicentro deste mapa de dor e resiliência. A estas somaram‑se os terramotos devastadores e a violência renovada em partes da Ásia e do Médio Oriente, que empurram para a beira do abismo comunidades já fragilizadas por anos de pobreza, discriminação e ausência de respostas estruturais.
A leitura destes números impõe um duplo exercício: compreender o presente e antecipar o futuro. As emergências humanitárias, longe de serem conjunturais, tornaram-se estruturais. Para 2026, o cenário que se desenha é tudo menos tranquilizador: mais pessoas precisarão de ajuda, sobretudo em regiões já fragilizadas, como a África Ocidental e o Corno de África, onde as alterações climáticas e a instabilidade política se sobrepõem. Também situações marcadas por conflito não resolvido ou instabilidade crónica - como no Irão, República Democrática do Congo, Sudão, Sudão do Sul, Ucrânia e Venezuela – requerem particular atenção ao longo deste ano, pois produzem ou acolhem mais de um terço de todas as pessoas forçosamente deslocadas no mundo, concentrando cerca de um terço das necessidades financeiras globais do ACNUR em 2026. Perante um contexto tão desafiante, o Global Appeal do ACNUR projeta para 2026 um novo crescimento para 136 milhões de pessoas deslocadas à força e apátridas, das quais mais de 31 milhões serão pessoas refugiadas sob o seu mandato e mais de 66 milhões viverão deslocadas dentro dos seus próprios países, em resultado de conflitos prolongados, colapsos climáticos e violações sistemáticas dos Direitos Humanos.
Mas há um paradoxo doloroso: apesar de a necessidade aumentar, os recursos disponíveis diminuem. E não podemos nunca esquecer que por trás de cada número estão rostos, histórias, vidas suspensas entre a memória de casa e a incerteza sobre o futuro. Cada novo corte no financiamento obriga a escolhas impossíveis: que operação manter, que programa reduzir, que comunidade ficará à espera de uma ajuda que talvez não chegue. Falar de cortes e percentagens é, na verdade, falar de crianças sem escola, de famílias sem abrigo digno, de mulheres sem acesso a serviços de proteção e de comunidades inteiras empurradas para viagens ainda mais perigosas em busca de segurança. Perante este panorama, o apelo à sociedade é simples, mas essencial: olhar para além das fronteiras, compreender que estas crises são parte de um mundo interligado e que a solidariedade não é um luxo moral, mas uma necessidade coletiva.
E se há algo que a experiência de 75 anos do ACNUR evidencia é a importância de uma abordagem preventiva e solidária: fortalecer comunidades de acolhimento, investir na resiliência e interligar a ação humanitária ao desenvolvimento sustentável. Portugal, pela sua história de compromisso com os Direitos Humanos, pode assumir aqui um papel relevante, construindo uma solidariedade baseada em parcerias e gestos concretos, que vá para além da filantropia.
Ao perspetivarmos este novo ano, a pergunta que se impõe é: que papel queremos desempenhar num mundo em deslocação? O futuro das emergências humanitárias não será decidido apenas nos campos de refugiados ou nas sedes das agências internacionais, mas também nas decisões de cada país e de cada cidadão. É aqui que a Portugal com ACNUR entra, não apenas como ponte entre uma realidade distante e o dia a dia em Portugal, mas como voz que insiste em lembrar que a solidariedade não é um luxo retórico.
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