Esta crónica é dedicada ao António. ALA para os amigos. Ou simplesmente António Lobo Antunes, o escritor maior que este País teve nos últimos 47 anos. Corria 1979, o ano em que lançava uma das obras mais marcantes da minha vida, “A Memória de Elefante”. Daí para cá, foi uma sucessão de livros que o levaram ao topo máximo onde pontuam os maiores vultos da caneta e do papel.
Acompanha-me desde que me lembro de ser gente. Através da sua escrita, mas também do seu pensamento e da forma tão peculiar como viveu. O dia 5 de março de 2026 é apenas uma data, que regista a morte. Mas a morte não é só um número. É uma perda. Uma perda dura de um homem que era único, inigualável e irrepetível. António Lobo Antunes é um colosso da literatura portuguesa. Um escritor difícil de compreender em tantas obras, mas o melhor de todos a questionar os traumas da História do seu País, com particular destaque para a Guerra Colonial, onde nos deixa matéria de reflexão como poucos.
Passei toda a minha vida lado a lado com o génio, com as palavras que me ofereceu, com o estado de alma que criou e onde viveu anos a fio. A solidão, os cigarros, os silêncios, a revolta com o estado do País, foram sempre seus companheiros de noites longas que lhe inspiraram a genialidade de ser. De ser pedaço de gente sem merdas nem palavras bonitas. Deu a este País e ao Mundo 50 anos de paixão literária, de amor aos leitores, de alma ao Universo.
Tive o privilégio de o viver em muitos momentos dos últimos 20 anos. Tive a sorte de o conhecer. De me encantar com as suas birras e as suas teimosias. Nesses altos e baixos, os cancros que venceu e que desafiou ao limite são escola de vida para muitos de nós. Também isso faz dele um ser extraordinário. Um homem sem medos, que ousou viver em todos os fios da navalha e dos precipícios.
Na Suécia, nunca o nobelizaram. E também não foi preciso porque os gigantes não precisam de vénias hipócritas nem de decisões políticas e politizadas. António Lobo Antunes será sempre património universal do Mundo. Chegou aos corações dos seus leitores com cuidado, amor e também muitas contradições. Esse foi o seu maior prémio em vida! Um prémio que o eterniza na história da literatura mundial, no legado literário de Portugal e no coração dos seus leitores, e que o continuarão a honrar através dos seus livros!
Crónica de 9 de março na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR.

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