A comunicação política digital dos candidatos às eleições presidenciais tem estado mais orientada para a manutenção da relação com os seguidores do que para a mobilização eleitoral ou a conquista de novos eleitores. A conclusão é de um estudo realizado por dois professores do IPAM, que analisou a forma como os candidatos às eleições Presidenciais de 2026 comunicaram nas principais redes sociais ao longo do mês de dezembro de 2025.

Crédito da Foto: Facebook Gouveia e Melo
A análise incide sobre 2.104 publicações feitas no Facebook, Instagram e TikTok por oito candidatos: André Ventura, António Filipe, António José Seguro, Catarina Martins, Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo, Jorge Pinto e Luís Marques Mendes.
Os dados mostram que mais de metade das publicações
analisadas corresponde a mensagens sazonais, sobretudo associadas ao Natal e ao
Ano Novo. Quando somados os conteúdos relacionados com eventos, visitas e ações
de proximidade, cerca de três quartos da comunicação digital dos candidatos
assume um carácter predominantemente relacional e simbólico, ficando a
comunicação programática ou de confronto político claramente em segundo plano.
Apesar de abordarem temas semelhantes, os candidatos diferenciam-se sobretudo
na forma como os enquadram, usando o mesmo contexto (como o Natal) para
transmitir mensagens de justiça social, união institucional, identidade
nacional ou clivagem política.
“O objetivo deste estudo não é avaliar ou julgar posições
políticas, mas compreender de que forma os candidatos usam as redes sociais
enquanto instrumentos de comunicação, que estilos discursivos privilegiam e que
tipo de relação constroem com as suas audiências”, explica Luís Bettencourt
Moniz, um dos autores do estudo e professor do IPAM.
A análise do envolvimento confirma que este tipo de
comunicação emocional é o que gera maior volume de reações, alcance e
partilhas, em particular no Instagram e no TikTok. Já os conteúdos de visão
política ou mobilização programática tendem a alcançar menos pessoas, mas
estimulam comentários mais longos e politizados, revelando maior densidade
discursiva e reforçando a distinção entre estratégias orientadas para o alcance
emocional e estratégias focadas na coerência ideológica.
“Em dezembro observámos duas estratégias claras: uma mais
emocional, orientada para o alcance, e outra mais política, focada na
mobilização interna. No entanto, nenhuma delas teve como objetivo central
convencer novos eleitores”, sublinha João Andrade Costa, coautor do estudo e
professor do IPAM.
Comunidades pequenas vs audiências amplas: o retrato por
candidato
A análise revela uma clivagem clara entre candidatos que
privilegiam escala e amplificação e aqueles que apostam na intensidade da
relação com comunidades mais pequenas. Os dados mostram que volumes elevados de
interações não correspondem, necessariamente, a maior envolvimento relativo,
nem a uma ligação mais sólida com os seguidores.
Jorge Pinto é o exemplo mais evidente de mobilização
intensiva. Com uma média de engagement de 41,2%, a mais elevada do estudo, e
cerca de 397 mil interações geradas ao longo de dezembro, o candidato construiu
uma relação muito intensa com uma comunidade reduzida, mas fortemente
identificada do ponto de vista ideológico. O alcance é limitado, mas a
capacidade de mobilização interna é elevada.
Num registo distinto, Cotrim Figueiredo consegue combinar
exposição e envolvimento. Com 215 publicações, regista um engagement médio de
11,6% e ultrapassa 1,2 milhões de interações, posicionando-se como um dos
candidatos com melhor equilíbrio entre escala e intensidade da relação com o
público. A sua comunicação beneficia da leitura mediática da campanha e da
aposta na competição eleitoral, sem depender exclusivamente da polarização.
André Ventura lidera de forma destacada em termos de escala.
As 372 publicações analisadas geraram mais de 5,5 milhões de interações, o
valor absoluto mais elevado do estudo. No entanto, o engagement médio fica-se
pelos 1,9%, o mais baixo entre os candidatos, revelando uma relação menos
intensa com audiências amplas, heterogéneas e fortemente polarizadas. O estudo
aponta para uma mobilização sustentada no conflito, eficaz para amplificação,
mas menos consistente na construção de envolvimento.
António Filipe e Catarina Martins apresentam padrões
semelhantes de comunicação ideológica. António Filipe, com um engagement médio
de 8,6% e cerca de 268 mil interações, mobiliza de forma estável públicos
politicamente alinhados, ainda que com alcance limitado. Catarina Martins, por
sua vez, regista um engagement médio de 4,4% e aproximadamente 308 mil
interações, sustentadas numa comunidade coesa, mas de menor dimensão.
Gouveia e Melo destaca-se pelo volume de atividade, com 400
publicações no período analisado. Apesar de somar mais de 567 mil interações, o
engagement médio situa-se nos 6,8%, refletindo uma comunicação marcada por
visibilidade institucional e proximidade social, mas com fraca coesão
relacional e menor ativação emocional.
António José Seguro apresenta uma presença digital regular e
pouco polarizadora. Com 354 publicações, um engagement médio de 4,8% e cerca de
482 mil interações, a sua estratégia assenta numa narrativa de estabilidade e
confiança, sem picos de viralidade, mas com envolvimento consistente ao longo
do mês.
Luís Marques Mendes surge como o candidato com menor tração
digital. Apesar de 226 publicações, o engagement médio não ultrapassa os 4,9%,
com cerca de 141 mil interações, o que indica dificuldades na mobilização da
audiência e na criação de uma relação digital significativa.
Redes sociais com lógicas distintas
O estudo confirma ainda que as três plataformas analisadas
apresentam dinâmicas próprias. Facebook e Instagram registam níveis de
engagement mais estáveis, enquanto o TikTok se caracteriza por picos elevados
associados a conteúdos pontuais e virais, sem consistência ao longo do tempo.
Nesta rede, poucos conteúdos concentram grande parte das interações,
beneficiando formatos específicos em detrimento da regularidade.
“A comunicação política digital em dezembro funcionou
sobretudo como um espaço de relação e de reforço identitário, e não como um
espaço de debate público ou de persuasão eleitoral”, resume Luís Bettencourt
Moniz.
Para João Andrade Costa, os resultados mostram que “a
eficácia da comunicação digital não pode ser avaliada apenas pelo engagement. É
necessário olhar para a visibilidade, a regularidade, o tom discursivo e a
capacidade de gerar reconhecimento simbólico. Em dezembro, quem apostou na
emoção ganhou alcance; quem apostou na política ‘pura e dura’ ganhou coerência,
mas não escala”.
Comentários