Portugal, Século XXI: num mundo em que tudo é tecnológico, faltam telhas para tapar a dignidade humana
Tenho-me escudado a comentar muita coisa do que se tem passado no País nos últimos quatro dias. Primeiro, por respeito, em segundo porque são tantas as consciências acusatórias neste tribunal digital das redes sociais, que chega a ser tóxico fazer scroll. Como há muito assim o é em Portugal, em relação a tantos assuntos.
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| Crédito da Foto: Pixabay |
Mas este texto serve apenas para dar o meu exemplo. O exemplo de uma filha que viu um pai e uma mãe a terem de ir tapar o telhado da sua casa na aldeia (construída a braços e suor há quase 50 anos) porque voaram 40 telhas com a tempestade. Uma aldeia esquecida no concelho de Mação. Uma aldeia que ficou igualmente sem água nem luz durante dias. A casa dos meus pais ainda não a tem porque o poste de eletricidade direto continua tombado e a E-Redes ainda não o reparou. Não o reparou porque não sabe que está caído. Temos de informar para o sinalizar. Todas as chamadas para as avarias não deram frutos. Não há quem as atenda. E está tudo certo. Sabemos que há aflições por todos os lados nas regiões afetadas. Mas serve este texto para dizer que, numa tragédia como esta, em muitos lugares, as pessoas ficaram e estão deixadas à sua sorte. A maioria idosas. Que vivem sozinhas. Que dependem apenas uns dos outros, quando tudo falha.
A verdade é que num tempo digital, faltam telhas para recuperar a dignidade humana das pessoas. Num tempo de juízes morais, falta empatia para com quem não consegue estar em todo o lado ao mesmo tempo.
Num tempo em que sabemos lidar com o teclado como nunca, não sabemos parar para deixar os outros fazerem o que podem, como podem. Cada um ajuda como pode, mas façamo-lo sem julgar o outro. Porque não sabemos totalmente a realidade de quem possa estar a passar pelas mesmas aflições no isolamento de outro lugar.
Portugal é um País solidário. Sempre o foi em momentos dramáticos coletivos. Sejamos cada um de nós, com o que somos e podemos, e deixemos os julgamentos morais para outros carnavais. Porque só podemos ser justos se formos capazes de olhar em silêncio, de agir sem pedir nada em troca. De reconstruir com verdade.
O dano maior que fica de tudo isto não é o que se vê, é o mental, o psicológico, o interior, aquele que pode ser curado, mas nunca será apagado. E esse ficará lá, para sempre, com todos aqueles que mais diretamente estão a sofrer com uma tragédia sem precedentes neste País.
Nota: sobre a ação política, ela está à vista. Escuso-me a comentar. É transversal, da esquerda à direita. A Governos, oposições e no caso a candidatos presidenciais, políticos iguais aos outros. Assim o foi em todas as tragédias dos últimos 20 anos em Portugal e assim continuará a ser. Portugal é um país que corre sempre atrás do prejuízo, que não antecipa, não planeia, não cuida antes de acontecer. Fá-lo-á algum dia?

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