'Uma Grande Provocadora' chamada Vera Lagoa

'A Grande Provocadora' é um podcast do Observador sobre uma das mulheres mais intensas e extraordinárias que este País conheceu.

Foto: Recorte Observador

Chama-se Maria Armanda Falcão, pseudónimo Vera Lagoa. Muitos dos mais novos não saberão, decerto, quem foi. Um espírito crítico e irreverente que a transforma numa das grandes figuras da crónica e jornalismo portugueses.


Tive o privilégio de ter trabalhado no jornal do qual foi Diretora, de ter bebido do seu legado, pelas mãos do meu eterno chefe de redação e amigo, João Naia. Três anos dos mais livres e plurais que tive no jornalismo português. E que me havia de marcar o futuro para sempre.

Escolho este episódio (n.º 4) porque é nele que se explica como depois de ter sido a primeira mulher locutora da RTP, das «Bisbilhotices» do Diário Popular e de tanto que deu a um País cinzento chega a Diretora do jornal O Diabo. E esse momento é historicamente simbolizado por um episódio que só está ao nível de uma mulher de coragem como Vera Lagoa. «Não gosto de si. O senhor é muito feio!». Assim terminava o editorial «O senhor Gomes de Chaves», publicado n’O Diabo, em fevereiro de 1976. O texto era assinado pela sua intensa diretora...Vera Lagoa. Menos de duas semanas depois, o semanário era suspenso. A ordem chegava do Conselho da Revolução, incomodado pelo tom rebelde do jornal e pela irreverência da sua diretora. Depois de dois números, O Diabo via a sua atividade interrompida. O News Museum descreve o que se sucede a seguir, com tinta da maravilhosa (e sua amiga) Natália Correia. O semanário, fundado originalmente em 1895, tinha renascido sob a orientação de Vera Lagoa. A primeira edição chegara às bancas a 10 de fevereiro de 1976. «Muita água correu sob as pontes até que fosse permitido a uma mulher como eu, sem passado literário (apenas com um passado de luta), dirigir um jornal de combate e de cultura. Para o combate, aqui estou eu. Para a cultura (além do combate, também, evidentemente) aqui está quem neste jornal escreve». Na mesma edição, Natália Correia assinava o artigo «Um Diabo de saias». «Ei-lo [O Diabo] agora ressurgido à luz da liberdade, com saias na direção. E que saias! Vera Lagoa, que encabeça o novo avatar de O Diabo é, sem dúvida, uma personalidade controversa. São-no os homens que se arremessam para a linha de fogo. Quanto mais uma mulher!».

Inconformada e combatendo o regime a sua voz mantinha-se firme. Com a suspensão d'O Diabo, fundou um novo semanário: o SOL. Após a publicação do primeiro número, foi colocada uma bomba à porta do seu gabinete. «O Sol não se apaga com petardos», escreveu a jornalista, no editorial da segunda edição do jornal. Nem bombas (escapou a quatro atentados), nem ameaças nem provocações, porque a única provocadora (do bem) era só uma: chamava-se Vera Lagoa. O SOL não durou muito (apesar de ter regressado com o mesmo nome e noutras circunstâncias no século XXI). O Diabo havia de regressar no início de 1977, praticamente um ano depois da suspensão. E que bom, graças a isso, tive a oportunidade de fazer do melhor jornalismo da minha jovem carreira (em outubro de 2005).

Para quem ama o Jornalismo, para quem ama a Política e a História deste País, este é um Podcast imperdível. Escolho o Episódio n.º 4 por se confundir com a minha vida e conter referências ao que ainda bebi desse jornal histórico com referências a Lígia Baltazar, secretária pessoal de Vera Lagoa e que ainda tive a oportunidade de trabalhar décadas depois, bebendo da sua memória e de quem privou com uma das mulheres mais marcantes do século XX.

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