Centro Interpretativo do Estado Novo e os fantasmas que não esquecemos

Depois de avanços, recuos e alguma polémica pelo meio, o Centro Interpretativo do Estado Novo - Regime e Resistência abriu portas na sexta-feira, 23 de outubro, na antiga Escola Cantina Salazar, no Vimieiro, em Santa Comba Dão, a poucos metros da casa onde nasceu o antigo ditador português.



O projeto, que esteve em discussão durante mais de 20 anos, pretende promover o estudo e a reflexão sobre o Estado Novo, as diferentes dimensões do regime e as formas de resistência à ditadura. A coordenação científica está a cargo da Associação fundada por José Pacheco Pereira.

Ao contrário de muitos que por aí dizem, que esta iniciativa mais não é que “branquear o regime fascista”, acho que é precisamente o contrário. É criar um espaço onde se possa promover o conhecimento, a investigação e o debate sem branquear a História nem as atrocidades de um homem que durante 48 anos oprimiu um País, reprimindo, torturando e assassinando os seus opositores.

Pacheco Pereira é um nome que, creio eu, inspira confiança e é detentor de um enorme conhecimento sobre este capítulo negro da História recente de Portugal. Quanto mais não seja, sossega-nos a alma sabê-lo na liderança científica deste Centro, um espaço que, na minha opinião, pode e deve ajudar a sustentar ainda mais a democracia portuguesa, e que tanto custou a conquistar.

Falar de Salazar não pode ser um tabu. Um Centro dedicado ao estudo do Estado Novo também não, porque a memória não pode ser ignorada e porque todos, incluindo as gerações mais novas, podem ficar a conhecer de forma mais profunda tudo quanto representa este período negro deste País. Nunca nos esqueçamos: o silenciamento sobre os fantasmas do passado é o primeiro passo para apagar a memória dos horrores que a ditadura nos trouxe. É por isso que, enquanto não me provarem o contrário, sou a primeira a aplaudir quem tem a coragem de contar a verdade tal como ela aconteceu. E, como diz o título da exposição patente neste Centro Interpretativo do Estado Novo, ‘Só Existe o que se Sabe que Existe’.

Podcast/Crónica de 26 de outubro de 2026 na Antena Livre. OUVIR. 

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