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E os meninos que Nicolau Santos não conhece? É ir ao Mini-Preço.


Na semana passada, Nicolau Santos, director adjunto do semanário Expresso, escreveu um artigo de opinião na edição online do jornal, onde relatava um caso a que assistiu num supermercado da capital.
Contava Nicolau Santos que uma mãe, acompanhada do filho de seis anos, não tendo dinheiro suficiente para pagar a conta na caixa do supermercado, teve de dizer ‘Não’ à criança e um pacote de bolachas que a criança teimava em querer levar.
O director-adjunto do Expresso acha que este é um caso que espelha a realidade dura e de dificuldades que o país atravessa. E acha também que este é o menino que Vítor Gaspar não conhece. Pois bem, das duas uma: ou Nicolau Santos gozou literalmente com o país real ou enlouqueceu. Em primeiro lugar, irrita-me profundamente que todos os males deste país sejam atirados permanentemente à cara de Vítor Gaspar. O ministro das Finanças que aceitou sê-lo neste tempo de incerteza e de sacrifícios, certamente que se pudesse faria bem diferente. Ele ou qualquer outro no seu lugar. Uma coisa é nós discutirmos opções políticas, outra é discutirmos obrigatoriedades, sob pena de o país ir à falência.
Vítor Gaspar não é o culpado do que estamos a viver. Os que nos desgovernaram antes dele é que deveriam ser chamados ao banco do tribunal.
Em segundo lugar este não é o menino que representa o país real. Porque o país real não pode prescindir de um pacote de bolachas. O país real é o que vive na fome e na miséria, é o país que não tem dinheiro para comprar leite, comida e pão. Bolachas? Oh meu caro Nicolau Santos, bolachas é um banquete que não está acessível à bolsa do tal país real.
O supermercado a que Nicolau Santos se refere é dos mais caros da capital. Nele não se vendem marcas brancas nem produtos mais baratos. Nele vendem-se produtos gourmet, de marca, a preço de bolsas de classe alta.
Pois que me desculpe, mas isto é gozar com aqueles que nada têm. É passar um atestado de pobreza intelectual a quem diariamente tem o estômago a chorar de fome.
Às vezes era bom descer ao país da classe média e pobre para perceber o que são dificuldades. Para perceber o que é contar tostões mês a mês. Mas estes iluminados falam assim ao mesmo tempo que jantam nos melhores restaurantes de Lisboa, que se vestem nas melhores lojas da Avenida da Liberdade e que passam férias nas grandes capitais da Europa e do Mundo. Podem fazer tudo isso. Mas tenham a decência de não dizer disparates. Quem passa sérias dificuldades não precisa de ser ainda remexido na sua dignidade.

Crónica semanal na Rádio Antena Livre [Abrantes], às segundas-feiras, em 89.7, Abrantes.

Comentários

Anónimo disse…
Parece que está isolada ao lado de gaspar quando afirma que "O ministro das Finanças que aceitou sê-lo neste tempo de incerteza e de sacrifícios, certamente que se pudesse faria bem diferente. Ele ou qualquer outro no seu lugar. Uma coisa é nós discutirmos opções políticas, outra é discutirmos obrigatoriedades, "

Octávio Teixeira, João Ferreira do Amaral e outros comunistas como De Grawue e Krugman dizem precisamente que Gaspar não quer fazer diferente e mais que o que está a fazer será tudo (suícida e homicida) menos "obrigatório".
Ana Clara disse…
Gosto de ouvir todos os que falam de fora... só acho que, com as obrigações actuais, a que nos prestámos, no lugar, poucos teriam margem de fazer diferente. Só isso...
Anónimo disse…
Está a partir do princípio de que gaspar não é um fanático friedmaniano. Ainda ontem, um deputado do PSD gritava que boa parte dos restaurantes têm de falir como se destruir pequenas empresas que asseguram centenas e centenas de milhares de postos de trabalho e de vidas fosse um caminho virtuoso.

Todos os que citei reconhecem a necessidade de austeridade. Mas nenhuma conduziria como Gaspar. Essa ideia de que só existe um caminho é de quem está convencido que a Economia é uma ciência exacta, quando na realidade é uma ciência social tão falível como a ciência política.

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