Scorpions: o abraço a Portugal num regresso a casa memorável

Lisboa, 08 de julho de 2026. A (minha) viagem há muito que começou. Marca no calendário 30 anos. Mas a deles é icónica: conta 60. Sessenta versos de um poema que assinala um percurso histórico, épico e irrepetível! 


Texto e Fotos: Ana Clara

Esta é uma viagem Universal mas faço sempre de cada paragem uma meta assinalável, emotiva e demasiado pesada para quem, desde os 15, os tem na vida, no coração e no quadro de honra de um rock que já não se faz. Em 2026, regressaram a uma das suas “casas”, Lisboa, com a Tour «Coming Home», que assinala as seis décadas de existência. Já o tinham feito em 2025, no Porto.

Num MEO Arena esgotado, os magníficos de Hannover provaram mais uma vez por que continuam a resistir ao tempo, às vicissitudes da saúde e da terrível idade. E pese embora todos esses obstáculos, continuam a dar ao seu fiel público um concerto sólido, seguro, enérgico e irrepreensível. 

Se me perguntarem se foi mais um concerto, de tantos aqueles que presenciei, foi. Mas não foi. Percorremos mais uma vez uma extensa discografia, que nos levou lá bem atrás, às memórias de tempos que já não voltam, mas a paixão pelo rock, pela música saída de uma garagem de Hannover em 1965, essa, permanece intacta, e sempre impávida no frenético nervosismo na pele, no sangue e na alma. 

Uma carta de amor a Portugal 

Porque esta não é uma digressão qualquer para eles (e para nós). «Coming Home» representa 60 anos de uma carreira construída com altos e baixos, e pautada, quer queiram quer não, com alguns dos maiores êxitos da história do rock. E se há palavra que pauta esse percurso exemplar, ela chama-se «respeito», porque é exatamente isso que se presencia em cada concerto, numa relação biunívoca entre os Scorpions e o público. E isso, bem, isso, é um capital extraordinário e garantia de qualidade e esforço.

O amor, em particular, entre os Scorpions e Portugal, continua inabalável e a história continua a fazer-se, por cá, e por todo o mundo, onde em 2026 continuam a encher recintos e salas, como se ainda estivéssemos nos anos 80 ou 90. E isso não está ao nível de qualquer um. 

O rock que continua a unir gerações 

Se há coisa que os Scorpions conseguiram estes anos todos, e isso ficou mais uma vez patente no concerto desta quarta-feira, em Lisboa, é a capacidade natural que juntar e agregar gerações inteiras. Avós, pais e filhos. Amigos. De gerações diferentes. Todos partilharam músicas que as atravessaram. Aliás, o público mais jovem foi um dos motores que deu confiança à banda para continuar a lançar álbuns desde 2010, quando percebeu que as novas tecnologias e as redes sociais traziam novo impacto à carreira. E, sem dúvida, que o conseguiram com sucesso. 



Uma clássica setlist mas a honrar 60 anos 

Apoiados num setlist clássica, mas a honrar as seis décadas, que tanto vai da fase mais roqueira a todas as baladas da praxe, passando pelo exuberante, imaginativo e já lendário solo de bateria de Mikkey Dee (o ex-baterista dos Motorhead que substituiu o saudoso James Kottak em 2016), por um esquema de luzes e efeitos visuais a preceito, pela pirotecnia certeira em momentos chave, pelas habituais acrobacias e, claro, pelas inúmeras declarações de amor por parte de Klaus Meine ao público nacional, com quem confessou manter um "love affair" desde que os Scorpions começaram a vir a Portugal, assinaram duas horas de rock'n'roll carregado da já famigerada e invulgar energia.



Das escolhas óbvias, mas incontornáveis, a digressão começa a fazer jus ao nome «Coming Home», e a dar o empurrão com uma introdução visual e instrumental que nos leva aos 60 anos da banda. 

Seguiu-se um enérgico «Gas In The Tank» e «Make It Real» para depois chegarmos aos históricos «The Zoo» e «Coast To Coast». Claro, não faltaram «Bad Boys Running Wild», para se entrar depois nas baladas tão esperadas: «Send Me An Angel», «Wind Of Change» e «Still Loving You». Para o fim, a nata que todos os rockeiros esperam: «Rock You Like a Hurricane», «Blackout» e «Big City Nights». 

Estas e tantas outras músicas deixaram bem claro que, para os Scorpions e para a sua enorme legião de fãs, com mais ou menos ‘azeite’ (como dizem as almas menos resolvidas deste Mundo), o rock'n'roll é mesmo para sempre. E isso é uma chatice quando já não se tem nada para provar ao Mundo. 


 Klaus (Meine) Rudolf (Schenker), Mattias (Jabs) e Pawel (Maciwoda) 

Pese embora a idade, o grupo mantém uma força coletiva inexcedível. Mas o elefante na sala não pode ser ignorado. Klaus Meine acusa, e muito, o peso da (falta) de saúde, das cordas vocais que há muitos anos lhe deram um susto que quase lhe acabou com a carreira. 

A mobilidade e as dificuldades vocais são, sem dúvida, claras. Mas assumidas, sem merdas nem 'mas'. Se a banda é o suporte incrível de Klaus, permanece a pergunta: terminada a Tour «Coming Home» terão a capacidade de sair de cena e arrumar as guitarras? 



É um tema difícil que aqui abordo há pelo menos uma década. Para uma fã como eu, gostava que o fizessem. Porém, apesar das fragilidades, enquanto grupo, continuam a não defraudar e a serem exatamente aquilo que sempre foram: escorreitos, genuínos, generosos e com um amor incondicional à profissão que escolheram.

Uma coisa é certa: há noites que simbolizam toda uma vida. Há dias em que nos espera aquilo com que não contamos. Há momentos transformadores, que estão destinados a serem especiais. Esses, são mesmo os melhores, que se entranham, que nos esventram, que estão condenados a começar e a não terem fim. Foi tudo isto (e tanto mais) que se viveu a 08 de julho, na MEO Arena, em Lisboa. 

Gostem ou não, os Scorpions atingiram um estatuto que muitos nunca alcançaram nem o conseguirão. A forma como se mantiveram unidos (Klaus MeineMatthias Jabs e Rudolf Schenker) é bem capaz de ser o segredo disto tudo e que nos vão dando, quando podiam bem já estar sossegados. Foi o meu 30.º concerto. Sou, por propriedade, uma das suas maiores fãs. Sei exatamente do que falo, do que vi e do que sinto.  

Obrigada, rapazes (Thank you, guys!). Tem sido (ou foi) uma viagem incrível!

Nota: gostava de poder partilhar neste artigo alguns vídeos que fiz no concerto, mas o Youtube impede e castra a liberdade do Mundo Livre. Tudo porque Scorpions é um nome riscado a Leste (na Rússia e pelo seu Estado ‘amén’, Bielorrúsia). É uma informação que o Mundo livre merece saber. Publicá-los-ei na página de Facebook do Platonismo. O Wind of Change, décadas depois, bem como a Ucrânia, ainda faz mossa no âmago do poder ditatorial. E ainda bem. A paz nunca será esquecida. 




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