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Como se recupera disto?


O tempo passa e não nos ampara no estado de letargia em que ainda estamos. Passam os dias, as horas e as semanas e vamos sentindo na pele a dor a entrar.

Aos poucos vamos gemendo com a dor interior que se espalha por todo o nosso corpo, que se infiltra no cérebro e nos presenteia com estalos permanentes.

Mesmo assim, não acreditamos. Ainda não acreditamos que Portugal perdeu 64 pessoas num incêndio que devia ser apenas mais um, para os números das manchas que todos os anos ardem, sem surpresas.

À medida que a frieza da distância prossegue, sentimos vergonha, queremos rebobinar o filme e alterar a realidade. 

Olhamos as vidas ceifadas com um pesar ainda maior, assistimos à dor dos que ficam e ficamos sem chão, sem saber articular uma palavra, sentimos que somos pó numa terra que vive agora da queima, do cinzento, da dor pintada em cada sopro de terra queimada.

Como se recupera disto? É a pergunta que me faço todos os dias. Somos cruéis connosco mesmos quando teimamos em viver o pesadelo como se ele não tivesse fim. Insistimos e continuamos à procura de respostas.  Mas elas não chegam, elas não são apaziguadoras da nossa alma, as respostas, essas, provavelmente, nem existirão.

Somos todos culpados. Somos todos cúmplices de um país que errou, de uma nação que não esteve à altura do seu maior desígnio: proteger os seus cidadãos. Mantê-los a salvo.

Depois disto, ficam pedaços de vazio. Vai deixar-se de falar na dor dos que, ficando, perderam tudo. Há vários países dentro deste rectângulo pequenino. E a dor, essa manhosa dor que nos come de todas as maneiras, irá manter-se alerta, nunca cessando, nunca fazendo desaparecer aquele fatídico dia 17 de junho de 2017.

Nas linhas do que outros um dia contarão, haverá vergonha, haverá arrependimento que não mata, haverá um mar de angústias que, noutra vida, serão cobradas.

Em Pedrógão Grande estarão os lugares, os sujeitos e os predicados, de uma frase que estará eternamente por desconstruir.

*Crónica de 26 de junho, na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR.  

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