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| Caricatura: André Carrilho |
O Mundo ontem registou a data. Mas a morte não é só um número. É uma perda. Uma perda dura para os leitores de um homem que era único, inigualável e irrepetível. António Lobo Antunes, ALA para os seus, é, por suor próprio, um colosso da literatura portuguesa. Um escritor difícil de compreender em tantas obras, mas o melhor de todos a questionar os traumas da História do seu País, com particular destaque para a Guerra Colonial, onde nos deixa matéria de reflexão como poucos.
Passei toda a minha vida lado a lado com o génio, com as palavras que me ofereceu, com o estado de alma que criou e onde viveu anos a fio. A solidão, os cigarros, os silêncios, a revolta com o estado de coisas de um País, o seu, que merece mais, foram sempre seus companheiros de noites longas que lhe inspiraram a genialidade de ser. De ser pedaço de gente sem merdas nem palavras bonitas. Deu a este País e ao Mundo 50 anos de paixão literária, de amor aos leitores, de alma ao Universo.
Na Suécia, a Academia que se acha a única com poder de ditar quem são os melhores, nunca lhe reconheceu em tantas obras-primas que produziu, o reconhecimento merecido. Morreu em paz com isso. Não tenho dúvidas. E nunca foi isso que fez dele um escritor mais frágil. Pelo contrário, sempre lhe deu a pujança de produzir, de escrever, de colocar no bater incessante da caneta o génio que sempre será. Às vezes, também em Portugal foi injustiçado. Porque muitos não o compreenderam nem nunca o conseguirão entender. E está tudo certo. Ou nem tanto.
Ontem, no dia da sua morte, passei o dia em jeito de fantasma. Não reagi ainda. Ainda me sinto deslocada do meu corpo, da minha cabeça e até do meu coração. Não sei ainda viver sem ele em vida. Terei de o aprender a fazer a partir de agora. Como e de que maneira? Não sei. Mas sei que a minha existência foi marcada pelo escritor da minha vida. Tive o privilégio de o ter em tantos momentos que alguns já nem me recordo, já passaram mais de 20 anos. Tive a sorte de o conhecer. De adorar as suas birras, as suas teimosias e os cancros que venceu e que desafiou ao limite. Também isso faz dele um ser extraordinário. Um homem sem medos, que ousou viver em todos os fios da navalha e dos precipícios. Nunca lhe poderei agradecer tudo quanto contribuiu para a construção de mim própria. Nem ele teve essa consciência. Sei apenas que hoje partiu parte de mim. E isso fragiliza. Mas também sei que fará de mim uma pessoa mais forte, melhor e mais resiliente.
Onde quer que vás na viagem, meu querido ALA, segue o sopro de uma AC que te amará no mais puro de ti. Continuaremos a conversar através da linha da caneta, de cor preta, que rascunha, serena e finaliza a frase interminável. A viagem, essa, não acaba aqui. E havemos um dia de fazer uma festa com todo o deleite a que temos direito.

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