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Alegre, o meu sobrinho e eu!




Manuel Alegre lança hoje, na Biblioteca Nacional, “Uma Outra Memória”, um livro que reúne escritos seus ao longo de várias décadas. Foi este o mote para a entrevista que o «nosso» [assim o vejo desde sempre] poeta Alegre concedeu ontem à RTP 3. Vi a entrevista, de início ao fim. E se há coisa que me faz falta é ver marcos históricos do meu país desnudados, falando da vida, do país, de si próprios e disponíveis para o fazer sem defesas. Tenho saudades deste género de entrevistas, onde os políticos nos dão a pele, mas também a carne, e nos fazem sentir pequeninos. Ouvir Alegre é sempre um exercício de cidadania sem fim. O que aprendemos com ele é algo incomensurável, que perpassa inúmeras gerações. De Alegre guardarei sempre o que com ele aprendi na Assembleia da República, em tempos que já completaram mais de uma década. Do antigo deputado-poeta, como os jornalistas lhe chamavam, guardo sempre a memória daquelas diretas para a liderança do PS – que disputou com João Soares e José Sócrates em 2004 – e que me deram uma «tarimba do caraças» em modo política partidária pura e dura. E jamais esquecerei aquela noite, em que após uma sessão de campanha interna de Alegre, no hotel Altis, em Lisboa, corria que nem uma louca para dentro de um táxi rumo à redação para escrever a notícia para a edição do dia seguinte. A loucura está unicamente de, nessa viagem, ter recebido a notícia de que daí a nove meses viria a ser tia pela primeira vez na vida. Manuel Alegre ligara-me minutos depois, ainda eu ia nesse inesquecível táxi. «Ana, era só para lhe dizer que se esqueceu do seu casaco na sala». Sorri e dei o maior berro – pela positiva – dessa campanha. [Nessas eleições o maior berro negativo estaria destinado a Sócrates...uma estória que fica para outros 500]. «Vou ser tia, o casaco pode ficar para amanhã»! Retribui-me Alegre: «o casaco e a notícia, porque isso sim é a notícia do seu dia». Alegre é isto. Alegre é tudo o resto, numa dimensão infinita de homem bom.  Tudo isto para dizer que, ontem, ao ouvir e ver Manuel Alegre, na entrevista à RTP, tive, pela primeira vez, a clara noção de que as marcas do tempo passam por todos nós. E penso: «quero viver-te intensamente. Enquanto posso. Enquanto permaneces vivo». Exatamente na mesma proporção em que descreveste a tua relação com a gigante poeta Sofia de Mello Breyner Andresen. Por tudo isto, e por tanto mais, obrigada Manel!

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