17 de janeiro de 2017

Novo Banco: uma fatura que chegará em breve



A deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, num debate no Parlamento, na semana passada, disse que em relação ao Novo Banco «todos os dados disponíveis apontam para que a nacionalização seja a opção menos penalizadora para o erário público». 

Pois bem, a saga da salvação da banca nacional desde os tempos do BPN até hoje continua a ser vista, aos olhos da esquerda radical, como natural. O discurso é incongruente, já que, são estes os mesmos homens e as mulheres que, nos tempos da Troika, atacavam quem ousasse nacionalizar e, com isso, entregar a fatura a todos os contribuintes.

O que está a acontecer com a venda do Novo Banco não é surpresa para ninguém. Ao longo do tempo fomos todos percebendo que a separação entre o Banco Bom e o Banco Mau era apenas fictícia.

Hoje não temos dúvidas de que o Novo Banco tem muito lixo herdado do antigo BES.

Mariana Mortágua vai ainda mais longe na defesa dos portugueses e diz que «uma vez pago, o Estado controla o seu banco e pode geri-lo ao longo do tempo». Uma vez pago, que é como quem diz, pago dos nossos bolsos, através dos nossos impostos.

É triste, muito triste quando um país, pobre como o nosso, se revela incapaz de gerir um problema desta natureza. O poder político, todo ele, de Passos Coelho a António Costa, tem muita culpa no cartório, e o Banco de Portugal ajudou a esta festa que agora mais parece um funeral.

As propostas apresentadas colocam aquele que foi um dos maiores bancos nacionais a preço de saldo. Ninguém quer pagar balúrdios e quem pretende adquirir a instituição quer depois vendê-lo às camadas.

Pelo meio há milhares de trabalhadores que temem pelo seu posto de trabalho. E pelo meio também há crimes ainda sem culpados, crimes de administradores que lesaram a banca e a economia ao longo de décadas.


Seja qual for o desfecho – e tudo se encaminha para a nacionalização – sabemos que a fatura chegará, como chegaram as do BPN, as do BPP e do Banif. 

*Crónica de 16 de janeiro de 2017, na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR.

11 de janeiro de 2017

O adeus de Obama




Fotos: Reuters

O presidente Barack Obama deu ontem o seu último discurso, depois de 8 anos de presidência. Vamos ter saudades. 

10 de janeiro de 2017

Os claustros de uma eternidade chamada Soares


Se Mário Soares estiver a ver a homenagem de um país (e do mundo) - e eu acredito que está - o seu sorriso será aberto, com aquelas gargalhadas que sempre lhe conhecemos. Olhar para aqueles claustros dos Jerónimos - onde há décadas assinou a adesão de Portugal à CEE - e ver o seu Adeus, ali, numa espécie de dimensão que desconhecemos, é algo que jamais esqueceremos. É um até já para quem nos deixa um legado identitário que jamais poderá ser apagado. 

Mário Soares: era uma vez um dia quente de julho no Vau...


Não podia deixar passar o momento sem falar de Mário Soares. Por estes dias, em que decorrem as cerimónias fúnebres, já tudo foi escrito, já tudo foi dito, já todos anunciaram, vezes sem conta, a importância que ele teve e terá sempre para Portugal, para a construção da democracia e daquilo que hoje somos e temos.
Conheci Mário Soares em 2004, na campanha interna do Partido Socialista, era eu uma jovem jornalista, a dar os primeiros passos no jornalismo político. Mário, o Pai, apoiava, como seria de esperar, o filho, João nas eleições internas do PS, contra Manuel Alegre e José Sócrates, tendo este último vencido o partido rumo a São Bento, como se sabe. 
Depois disso cruzei-me com ele algumas vezes, sempre em circunstâncias profissionais. 
E apenas uma vez, uma única vez, me encontrei com ele pessoalmente. É sobre essa história que aqui vos quero falar. 
Para lá do político, do histórico, do advogado e da figura incontornável da democracia portuguesa havia um Homem, um Homem com uma memória rara e com uma forma particular de ser e estar. 
Foi em 2010, no Vau, no Algarve, para onde Mário Soares e a família rumavam todos os anos, sem exceção, para passar as tradicionais férias de verão. 
Numa manhã de calor intenso de final de julho subia eu a encosta íngreme, de terra batida da Praia do Alemão, quando ouvia alguém chamar por mim. Por aquelas bandas era raro encontrar alguém, e jamais naquele momento me passaria pela cabeça que fosse Mário Soares. 
“Ana Clara, por aqui, que é feito de si?”, dizia-me ele, depois de me voltar para trás e de lhe acenar. A hora de almoço que já marcava no relógio há muito, havia ainda de esperar mais uma hora, porque Mário Soares fez questão de descer de novo à praia para tomarmos um café. 
Era assim Soares, com uma memória implacável, não esquecia uma cara, um nome, e sabia, de cor, o ano e o jornal onde eu estava quando nos conhecemos. 
Era um homem resolvido, firme do caminho, sólido no pensamento, convicto dos valores. E, sobretudo, tolerante, de uma compreensão dolorosa até, quando os outros discordavam dele, quando ele discordava do mundo. 
É este um dos valores maiores que Mário Soares deixa cravado em mim: o da tolerância na liberdade de que dispomos.
É por isso que esta crónica é dedicada à memória de Soares, que ela nunca se extinga na consciência deste país que, pese embora os que dele nunca gostaram, tem para com ele uma enorme dívida de gratidão.

*Crónica de 9 de janeiro de 2017, na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR

9 de janeiro de 2017

A melhor capa do dia.


O adeus a Soares


Da Ribeira das Naus, com o Tejo a lançar as despedidas, Lisboa e o país despedem-se de Mário Soares, o Homem a quem o País agradece as conquistas do seu tempo, incontornáveis nas últimas cinco décadas. O Sol que hoje nasceu parece ter-se preparado para dias estranhos como estes que todos, cada um à sua maneira, vive.

8 de janeiro de 2017

Compreender Estaline


Vão ser muitas semanas a devorar um dos ditadores mais tenebrosos do século XX. Prefácio de Francisco Louçã e Paulo Portas, numa iniciativa que celebra o 100 aniversário da Revolução Russa. Obrigada, Expresso

7 de janeiro de 2017

Mário Soares (1924-2017)
























 Neste dia, já de alguma forma esperado pelo país, nada do que aqui se possa escrever será uma mais-valia para lembrar o Homem que se confunde com a Democracia Portuguesa. O seu nome, o seu contributo, a sua esperança continuará viva. Porque os democratas não perecem, são apenas a continuidade de uma inspiração. Deixamos um conjunto de imagens, com o cunho da sua Fundação.

3 de janeiro de 2017

ACREDITAR. É a minha palavra para 2017 e todos os outros anos.


Começamos mais um ano novo. Um tempo em que pedimos esperanças. Em que vencemos barreiras que julgamos impossíveis, simplesmente porque acreditamos. Nesta primeira crónica de 2017 é sobre isso que quero falar-vos. Da palavra ACREDITAR.  
Uma missão que começa em cada dia dos 365 que agora começaram. 
Sabemos que enfrentaremos dificuldades, entraves e outras barreiras que ainda não conhecemos. 
Mas essa é a lei da vida que se encerra e inicia com os ciclos que vão e chegam. 
O país, bem o sabemos, continuará a enfrentar desafios gigantes, e todos nós estamos nesse barco, porque somos peça-chave naquilo a que o atual Governo se propõe. 2017 conta com autárquicas lá para setembro ou outubro e será em cada município que se joga o futuro que cada um de nós ditar. Também aí, cada cruz assinalada, fará mudar ou não o nosso bairro, a nossa rua, as nossas vidas. 
Lá fora o mundo continuará com medo, medo do terror, medo da guerra, medo dos choques civilizacionais que ganham força em vários palcos regionais. O apelo do novo secretário-geral da ONU, António Guterres, no primeiro dia do ano, foi claro e firme quanto a isso: «façamos da paz a nossa prioridade». 
É por isso que devemos ACREDITAR. Na nossa vida pessoal mas também no país e no Mundo. Porque só assim vale a pena começar mais uma etapa da nossa existência. 
Desejo a todos os ouvintes, profissionais e colaboradores da Antena Livre um Feliz 2017.

*Crónica de 2 de janeiro de 2017, na Antena Livre, 89.7, Abrantes. OUVIR.

1 de janeiro de 2017

15 anos de Euro


Cumprem-se hoje 15 anos da moeda única. Veja aqui o trabalho do El País sobre uma história que está longe de ser coesa. 

«Façamos da paz a nossa prioridade»


Na primeira mensagem como secretário-geral da ONU, António Guterres lembrou que há «vastas regiões do planeta inteiramente desestabilizadas» e que «nestas guerras não há vencedores». É a maneira mais firme de começar 2017. Que o saibamos todos ajudar. 

27 de dezembro de 2016

Louriceira: um símbolo de resistência no mundo rural português


Hoje quero falar-vos do que sou, propondo-vos uma viagem ao que de mais profundo há neste Portugal rural, numa viagem que começa em Abrantes e termina na pequena povoação de Louriceira, uma aldeia esquecida no concelho de Mação, na fronteira entre o norte ribatejano e o sul da Beira Baixa.
A pequena estrada, íngreme, que começa no alto dos vales, continua igual há 30 anos: estreita, mal passa um automóvel. O desenvolvimento, na pequena aldeia da minha infância, que conta hoje com pouco mais de 10 habitantes, teima em não chegar. 
A escola primária há muito que fechou as portas, caindo na degradação. Facto natural numa localidade onde as crianças não nascem. Os jovens são poucos e os velhos são uma imagem da resistência. 
Chego na tarde de Natal. O sol passeia-se por ali, entre vales e montes, a chamar por mim. A viagem rumo à Louriceira é feita de olhares atentos. Numa paisagem de montes e vales, deixo a estrada principal que vem desde Abrantes. 
À medida que desço o Vale, avistam-se, aqui e ali, lá bem no alto, moinhos de vento, alguns abandonados, outros ainda utilizados pela população. Há hortas nas encostas que há anos não vêem uma enxada. Uma paragem à beira da pequena estrada traz-me apenas o silêncio, entrecortado pelo coaxar dos sapos que vagueiam pelo riacho. Este corre no vale em direção à ribeira que embeleza o povoado. 
No centro da aldeia da Louriceira espera-me uma tradição de finais de Dezembro, pese embora já serem poucos os que restam para a manter viva: o grande tronco de Natal que arde até ao dia seguinte. 
O ambiente, esse, já não é o mesmo. Deixou de haver grandes multidões em torno da fogueira de Natal, já que a Emigração há mais de 20 anos levou gente para paragens mais longínquas. 
Prossigo a viagem. Os caminhos para chegar ao cimo da aldeia são tortuosos. Bem contornados chega-se lá, ainda que com a respiração ofegante e paragens pelo meio. 
Janta-se cedo por estas paragens, seja noite de Natal ou em todas as restantes noites do ano. O bacalhau coze nas brasas das lareiras. O peixe fumegante é figura imperativa nas terras do Interior nestes frios invernos. 
Às dez da noite o sono já bate à porta. Aqui deita-se cedo e cedo se levanta. A fogueira comunitária continua a arder, ainda que sem a chama humana de outros tempos. Das chaminés, o fumo denuncia que o serão acabou. À meia-noite poucos são os que ainda mantêm a chama acesa. Os candeeiros das ruelas emanam uma luz fraca, e vaguear por aqui em noite cerrada é uma verdadeira aventura. 
Horas depois, Louriceira acorda vagarosamente num regresso que já se antecipa. O cepo da noite anterior ainda arde. Pouco, que a noite foi longa e o Natal está a terminar. 
A fogueira apaga-se aos poucos. Subo de novo o vale que me há-de levar à cidade. Para trás, a imagem continua igual, a de uma aldeia que resiste através daqueles que nunca sairão. Até que a morte chegue. 
Esta é a aldeia da minha infância. Esta é a imagem do Portugal profundo que morre lentamente mas que desejo sempre que nunca se acabe.

Crónica de 26 de dezembro de 2016 na Antena Livre, 89.7 Abrantes. OUVIR

25 de dezembro de 2016

Louriceira: a aldeia da minha infância onde os velhos são símbolo de resistência





















Ao longe avisto a pequena povoação de Louriceira, uma aldeia esquecida no concelho de Mação, na fronteira entre o norte ribatejano e o sul da Beira Baixa. A pequena estrada, íngreme, que começa no alto dos vales, continua igual há 30 anos: estreita, mal passa um automóvel. O desenvolvimento, na pequena aldeia da minha infância, que conta hoje com pouco mais de 10 habitantes, teima em não chegar. A escola primária há muito que fechou as portas, caindo na degradação. Facto natural numa localidade onde as crianças não nascem. Os jovens são poucos e os velhos são uma imagem da resistência. Crónica em breve! Festas Felizes a todos! E não se esqueçam, quem partilha é feliz. ❤