Avançar para o conteúdo principal

Filha de Abril me confesso em carta de Amor à Liberdade.

Quando naquela madrugada de 25 de Abril de 1974, Portugal se despedia do regime ditatorial que governou o país durante 40 anos, eu ainda não tinha nascido. Só viria a ver a luz do dia, em terras do Interior esquecido, nos primórdios da década de 80. 
O mesmo Interior que hoje, por incrível que pareça, permanece esquecido pelos tecnocratas de Lisboa travestidos de Madre’s Teresa’s de Calcutá. 
Inevitavelmente, a forma como olho para o Portugal democrático é diferente daqueles que o sentiram, viveram e presenciaram. Sou filha da Liberdade, foi nela que cresci e é nela que vivo. Não conheço outro modo de viver e ser portuguesa. Ser livre em direitos e deveres. Ser livre nas opções individuais, na forma e conteúdo que escolhi. Ter ideias e pensamentos moldados pelas influências que, livremente, decidi serem os mais aproximados do meu carácter. Isto é comemorar Abril, sem pretensões de esquerda ou de direita, sem sombras de radicalismos. Apenas eu. Portuguesa. Livre. Eu. Mas a Liberdade de Abril tem custos. O preço de defender quem somos, de onde partimos, para onde vamos, tantas e tantas vezes sós, isoladamente, distante do rumo mais unânime que nos rodeia. No ano em que comemoramos estes 40 anos de Liberdade, estamos reféns, privados do nosso bem-estar, das lutas, no fundo, dos valores que a Revolução exaltou. Se quiserem, da tal Liberdade conquistada, e que tantos jovens como eu, gerações do pós-Estado Novo, nunca entenderam realmente o que significa. Para sentir o verdadeiro sabor da Liberdade, acredito, precisamos de ter sido privados dela. E talvez sejam precisos mais Maios, Junhos ou Julhos (qualquer mês serve) para nos ensinar de novo a respirar, a sermos donos do nosso destino, num país que merece mais do que um simples sopro financeiro. Por tudo isto, que inveja tenho eu de não ser filha de Abril. Mas ganhei a sapiência, o legado, o ensinamento e as estórias de muitos homens e mulheres que marcaram esse tempo em que Portugal virava uma página negra da sua História. Que a minha geração e as que me precedem saibam honrar as lutas passadas, é que…não há maior legado que a busca permanente da Liberdade genuína de ser Português! Sexta-feira que sejamos todos filhos de Abril. Bom 25 de Abril. E não se esqueçam que a Liberdade é a nossa maior conquista.

*Crónica 21 de Abril, Antena Livre, 89.7 Abrantes. Parte deste texto será publicado na Gazeta de Sátão, a convite do referido jornal a propósito dos 40 anos do 25 de Abril. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Autárquicas 2017: o papel dos independentes

Um primeiro-ministro à altura da tragédia

«O país partilha um sentimento de luto nacional e um grande sentido de unidade. A quem perdeu familiares e amigos, a nossa solidariedade», escreveu António Costa, na sua conta no Twitter
Há momentos dolorosos de um primeiro-ministro. Este, sei-o bem, é um deles. 
A imagem, essa, diz tudo.

Sinto-me miserável

Não devia hoje falar sobre a tragédia que aconteceu em Portugal este fim de semana. Mas sinto que preciso abordar o tema.
Em primeiro lugar porque há todo um país a chorar os seus mortos. O que aconteceu em Pedrógão Grande parece saído de um filme de terror.
As imagens, os sons do silêncio e o desespero de quem perdeu os seus fazem-nos sentir, à distância, miseráveis. Eu, confesso, sinto-me miserável. Como testemunha. Como impotente. 
É certo que muita coisa podia ter sido feita para aliviar o drama.
Contudo, o conjunto de fatores climáticos únicos e extremos que se encontraram ao final do dia de sábado, mudaram o percurso da história.
Em Abrantes viveu-se o mesmo fenómeno. Eu própria, durante duas horas, assisti a tudo.
Um céu negro que se formou lentamente, relâmpagos de terror e a formação de ventos muito fortes conduziram a momentos dramáticos e de reviravolta no incêndio de São Miguel do Rio Torto.
Isto mesmo comprovaram as autoridades. Das poucas certezas dadas, há uma que é inequí…